A conta do coronavírus e suas lições

Os impactos na economia, as profissões reinventadas e a certeza de que o mundo nunca mais vai voltar ao normal

A conta do coronavírus e suas lições

O mundo antes do vírus era tudo, menos normal. Diversos cientistas já faziam alertas antes mesmo do coronavírus nos ameaçar: aviso à Terra – “o tempo está se esgotando”. Cartas abertas revelavam ao mundo todo o alerta de danos substanciais e irreversíveis ao planeta, que ameaçam a própria vida que todos conhecemos. Era claro – e ainda é – que os seres humanos estavam em um curso de colisão com a natureza.

As atividades humanas infligem danos severos e, muitas vezes, irreversíveis ao meio ambiente. As práticas que se arrastaram por anos colocando em risco o futuro que desejamos para a sociedade humana, os reinos vegetais e animais, alterando o mundo vivo a ponto de ele não ser capaz de sustentar a vida da maneira que é conhecida hoje. Em paralelo a isso, o Covid-19 chegou e com ele uma mudança social, cultural e, sobretudo, econômica, que assola o mundo todo. Toda grande mudança tem um preço alto a ser pago. E para mudar um curso de colisão com a natureza, como os cientistas alertaram, era preciso uma grande mudança e consciência.

Os seres humanos compravam plantas e não as regavam, faziam filhos e não eram eles os responsáveis por cuidar, alimentar e educar; não sabíamos quem eram nossos vizinhos, os pais não conviviam com os filhos, a educação era terceirizada. E muitos ainda falam: “isso vai passar, logo vamos voltar ao normal”. O mundo era tudo, menos normal. Como vai ser depois? Quais as lições que iremos levar? É, meu amigo, o mundo nunca mais será o mesmo.

Empresas mudam a forma tradicional e percebem que o home office dá certo, que as pessoas produzem mais e com melhor qualidade no conforto de seus lares. Aliás, o home office deve crescer 30% no país após o coronavírus, segundo a FGV. As pessoas e os líderes precisam entender que muitas reuniões presenciais poderiam ter sido simples e-mails ou chamadas rápidas de vídeo. Seria benéfico para todos – e para o planeta – evitar o deslocamento em massa. Toda grande mudança tem um preço alto a ser pago. As cidades que nunca paravam, pararam. E a reflexão que fica é que tudo se conecta, que foi preciso um vírus nos amedrontar para percebemos que estávamos destruindo o planeta terra. O vírus cobra um preço alto e precisaremos ressignificar a vida e nossa existência, antes que esse planeta acabasse. Os cientistas falavam que daqui 30 anos o planeta seria inabitável e a gente pensava: dá para esperar, o planeta vai esperar.

 

“O amor nos tempos do cólera”

Com o isolamento social para achatar a curva do coronavírus, muitos contatos físicos suspensos e mesmo assim, parece que o mundo está mais amoroso e preocupado com o próximo. Vivíamos em um mundo binário: “sim”, “não”, “direita”, “esquerda”, nesse momento, estamos descansando desse preenchimento e daí nasce o amor, a arte e a maneira de enxergar a vida com outra lente. Centenas de empresas estão doando parte de seus lucros para o combate ao vírus, brasileiros movendo campanhas gigantescas de doações, governo adotando medidas nos mais distintos segmentos para amenizar o impacto, mesmo muito aquém do que precisamos, sobretudo, para os profissionais de trabalho não essenciais, afim de que passemos por isso com machucados, óbvio, mas com lições de que podemos e devemos nos ajudar.

 

O Brasil nasceu para ser uma empresa e o coletivo nunca esteve tão presente no dia a dia

“Brasileiro”, a palavra, já nasceu pegando no pesado. O sufixo eiro tem empregos numerosos, “faxineiro”, “açougueiro”, vem daí a palavra. O contraponto com o coronavírus se faz extremamente presente, pois nascemos para ser uma empresa e depender do governo brasileiro nunca foi a ideia da maioria, até porque em um país de terceiro mundo isso seria uma piada. O fato é que o coletivo nunca esteve nas pautas do dia a dia e o coronavírus nos trouxe essa presença.

 

Conclusão

Talvez a nossa busca por voltar ao normal nos tire do aprendizado que o coronavírus nos trouxe. De que não existe jogar o lixo fora, por exemplo, não existe fora. Tudo está conectado e o ser humano precisa aprender isso. Questione o que é normal. A melhor maneira de enfrentarmos isso é passando de maneira amorosa. Se existe alguma troca de atitude da mudança com o outro como: família, meio ambiente, com os animais, planeta, com a sua alimentação, com o que quer que seja, coloque em prática. Esse é o melhor recado que nós, como indivíduos, interagindo com o coletivo, podemos fazer nesse momento. Sobre mudar a nossa consciência, sobre o nosso papel nessa vida, tendo mais responsabilidade com o que estamos vivendo aqui e agora. E com o que queremos para o nosso futuro.

Juliana Garcia é Sócia e Diretora na IDEIACOMM.

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